Compreendo hoje porque Edgar Rice Burroughs ou Rudyard Kipling tenham mostrado tanta paixão ao escreverem estórias sobre a vida de alguns animais. Não são mundos tão diferente assim do nosso, supostamente mais racional, e a moralidade que se vislumbra ao observador atento pode ser benéfica para a evolução da nossa humana consciência dos estranhos mundos com os quais é suposto convivermos, mas que, na verdade, ainda quase completamente ignoramos. Gostaria então de poder contar-vos esta estória verídica que um velho caçador africano um dia com manifesta emoção me contou, na última vez que eu visitei uma pequena ilha da Costa Oeste Africana.

Esta é a história de uma macaca babuíno que perdeu sua mãe, Rainha dos Babuínos, quando ainda era criança, assassinada por um leopardo, o maior predador da ilha onde viviam. Sozinha, órfã, durante todo esse trágico dia, Lau se ergueu nas suas pequenas pernas, olhando em todas as direções, fazendo aqueles sons típicos dos macacos bebés, «roh,roh, roh». O corpo da mãe jazia inerte, desfigurado sobre os ramos de uma árvore e, nos tempos que se seguiram, Lau lutou pela sobrevivência com todo a força do seu pequeno ser, até que, com três anos de idade já tomava conta de si. Lau brincava com as outras macaquinhas mais novas carinhosamente, embora por vezes tivesse comportamentos estranhos,  raptando por momentos os filhos de outras macacas, sem que porém estas mostrassem descontentamento por respeito pela hierarquia. Apesar de tudo, Lau era a filha da antiga Rainha… Um dia, por mero acaso, vislumbrou do alto ramo onde se encontrava, o pequeno filho do leopardo, assassino de sua mãe. Quedou-se quieta por longos momentos enquanto observava os movimentos desajeitados daquela pequena criatura. Nós humanos, estamos habituados à tragédia, e julgo que podemos imaginar o que se teria passado naquela pequena mente animal, as emoções que aquele pequeno ser indefeso e ao seu alcance teriam suscitado em Lau. Pareceu por momentos querer vingar-se, querer fazer sofrer a velha mãe leopardo o que ela sofrera até então, órfã de mãe, mãe que fora outrora a Rainha dos Babuínos naquela remota ilha da costa africana.

Havia também, naquele tempo um rufia, que aqui podemos chamar por Rau, um macaco adolescente e marginal naquele grupo, e que costumava brincar carinhosamente às escondidas com os outros macaquinhos em redor de uma alta termiteira, mas que se mostrava particularmente cruel para com Lau, perseguindo-a com frequência, mordendo-a com ferocidade, e tornando a já difícil vida de Lau num autêntico inferno.

Os anos foram passando naquela floresta distante de África e Lau mostrava sinais de ter chegado à idade adulta, como era evidente no seu rabo saliente e avermelhado. Então, um dia aconteceu o inimaginável, mesmo na vida dos macacos há o inimaginável. Entre Rau e Lau os papéis se inverteram e Rau começou a evidenciar um estranho fascínio por Lau. Um dia, quando Lau se encontrava meditativa no recanto mais alto de uma acácia, Rau aproximou-se dela, agora mostrando insegurança, quase caindo da árvore sempre que avançava na sua direção um pequeno passo sobre os vacilantes ramos da velha acácia, na verdade um lugar pouco romântico para um primeiro encontro. Rau mostrava-se rendido aos encantos de Lau, era demasiado evidente, excitado por um tumulto hormonal incontrolável, joguete de um destino imprevisto. Mas não, não. Lau não se interessou minimamente por Rau, nem se dignou olhar para ele um segundo que fosse, desdenhando Rau com toda força do seu ser de macaca. Por momentos, o velho caçador, observador atento, sentiu compaixão por Rau. Esse foi também o último dia de Rau entre o grupo dos babuínos…

Na sequência impetuosa do tempo que até cuida dos babuínos de modo muito afim à dos humanos, Lau teve depois o primeiro filho, que tratava com extremo carinho. Mostrando uma enorme sabedoria, cuidava do pai da filha com um esmero excedido, de todo pouco usual entre os babuínos. Lau sabia instintivamente que aquela era a melhor forma de proteger a filha, aquela que poderia eventualmente vir a ser a futura rainha, sua sucessora, e o pai, reconhecido, retribuía o carinho com uma atenção redobrada sobre a filha, protegendo-a de todas as ameaças, incluindo da maldade intrínseca à espécie macaca.

Um dia, um calamitoso incêndio destruiu metade da área onde habitava este grupo. Debaixo de uma nuvem de cinzas, caminhando sobre a terra queimada e ainda fumegante, aquela pequena horda de babuínos parecia condenada à morte, imersa num novo ambiente apocalíptico, e rixas irromperam no grupo. E foi então que, mais uma vez o destino revelou o seu imperativo. Uma pequena rixa entre as duas irmãs decidiu-se a favor de Lau, pois ela passou desde aí a ser a Rainha dos Babuínos. Caminhando pelo solo queimado e ainda fumegante, descobriu que as raízes da vegetação rasteira se revelava agora à vista de todos, irrompendo do subsolo com a força do calor do incêndio, e que essas raízes eram comestíveis. Tal descoberta alimentou os seus congéneres e apaziguou os ânimos. Com outro sinal feliz que perduraria ao longo do novo reinado, a irmã de Lau não se mostrou importunada com o facto de ter passado a preencher o segundo lugar da hierarquia, e ambas as irmãs continuaram a conviver em paz, o que se revelou benéfico para aquela pequena horda.

Com o fluir do tempo, Lau teve vários filhos e netos, sempre muito dedicada à sua numerosa família, tendo gestos de carinho e brincadeiras que recordam em muitos aspectos as brincadeiras com que os humanos costumam entreter as suas relações familiares. E, como referi, uma das filhas viria a ser a futura Rainha dos Babuínos, tal como acontecia há várias gerações.

Entretanto a vida de Lau não era fácil, apesar de se encontrar no topo da hierarquia, mostrando que o poder não é sinónimo de felicidade. Tinha sido gravemente mordida pelo filho do leopardo que assassinara sua mãe, sobrevivera a uma cegueira temporária provocada por uma mordedura de cobra. Para lá do que seria expectável, também sobrevivera à morte de alguns filhos seus, mostrando-se claramente abalada, transportando dias seguidos o corpo inerte dos filhos, até ter coragem para os abandonar. O filho do velho predador leopardo, assassino de sua mãe, também tinha sucumbido a uma ferida e todos os outros oponentes a Lau tiveram igual fim. Contra todas as probabilidades, Lau tinha sobrevivido a todos os seus inimigos.

Porém, no seu vigésimo quinto inverno, Lau encontrava-se claramente debilitada, visivelmente acompanhando com dificuldade o grupo. Nós humanos, tal como os macacos, nunca poderemos estar certos de que haverá um amanhã. E, nesta ordem natural das coisas, chegou o dia em que Lau subiu para uma árvore de grande porte com notável dificuldade para descobrir que se encontrava só. Só, todo o grupo tinha partido para outro lugar. Olhou à sua volta durante horas, procurando por sinais dos seus, clamando por eles no seu vozear próprio, embora agora mais débil, vislumbrando os misteriosos caminhos e os estranhos ramos que se encontravam para lá do pântano que se interpunha agora entre ela e o resto da floresta. Clamou pela última vez pelos seus, tal como em criança clamara em vão pela presença de sua mãe. Desalentada, desceu da alta árvore e embrenhou-se, decidida, pelo pântano adentro.

Para nunca mais ser vista.

 

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